Devo a Albert Camus o termo ideal para coroar um conceito que há certo tempo vinha desenvolvendo. É que todos nós, gênios, somos um: assim ele nomeia um conceito que eu desenvolvo, sem que haja distorções na compreensão. Concebo a verdade como lâmina que elimina o que é molesto; alcançar a liberdade envolve sempre a ruptura da escravidão, e, como a compreensão é individual, o grilhão sempre está em nós mesmos (e é aí que o cristianismo dá à luz o seu próprio coveiro); sendo assim, desde cedo escolhi reconsiderar aquilo que parecia aflitivo. Num primeiro momento, procurava compreendê-lo, o que é esforço simplíssimo; num segundo, abstraindo-o, cheguei à conclusão de as dores nascem da cisão entre pensamento e realidade, pois o desconforto está no não-familar. O Nihilitismo, que idealizei e que tangencia o niilismo, dá ênfase ao Nada como fonte e destino universal da realidade e, assim, mostra quatro posturas fundamentais diante dela (três possíveis e uma ideal). O fato de o Nada ser a força-motriz do universo, primus motor aquiniano, para além da evidente ironia, apontava a vacuidade dos esforços humanos, a óbvia inautenticidade do indivíduo e a conseqüente paz que a plena liberdade - na não-liberdade, porém - confere.
O absurdo de Camus, no Mito de Sísifo, é a [essa mesma] contradição entre a realidade, irredutível, e a nossa exigência de familiaridade. Para ele, qualquer forma de reconciliar esse divórcio é um subterfúgio. Para realizar tal fuga, há o suicídio: fisiológico ou filosófico. Este pertence ao pensamento e é bifurcado: o suicídio que se dá por meio do irracionalismo, tal qual o salto de fé de Kierkegaard (por não encontrar sentido ou ordem na realidade, procura encontrar um sentido transcendente nessa própria ausência de sentido); ou por meio da ofuscação do racionalismo extremo dos fenomenologistas (Husserl nega a razão humana, por isso não explica a realidade, mas diviniza, de certo modo, razões-tipos subjacentes aos fênomenos, o que também é uma forma de salto). Ambos se encontram com o absurdo e desequilibram a relação entre o mundo e o homem por meio da morte do intelecto. Outra postura, diante da falta de correspondência transcendental, para citar Georg Lukács, envolve sua admissão por meio do suicídio concreto; o suicida admite seu destino e se precipita nele, o que é o contrário do absurdo, que exige ser confrontado.
Camus, dessa forma, propõe uma terceira possibilidade: podemos aceitar viver num mundo completamente destituído de sentido. Na verdade, viver com o absurdo é uma questão de encarar essa antinomia definitiva e manter constante consciência disso, por meio da ausência total de esperança, da recusa contínua e da insatisfação consciente. Confrontar o absurdo, ao invés de motivar o suicídio, é o que nos permite viver a vida com suas implicações e conseqüências e, enfim, em sua plenitude. A possibilidade de aceitar e viver o absurdo possui três grandes corolários: revolta, liberdade e paixão. Revolta, pois a possibilidade de aceitar a reconciliação envolve a renúncia ao absurdo. Liberdade, porque não há amarras que limitem nossos atos e pensamentos para além das conseqüências imediatas, que devem ser pesadas. Paixão, porque a vida adquire, se tudo é, em absoluto, estéril e jamais satisfatório, maior valor quantitativo do que qualitativo.
"Mein Acker ist die Zeit" [meu campo é o tempo], Camus cita o Wilhelm Meister de Goethe, e assim demonstra o limite que compreende e é compreendido pelo homem absurdo: este nunca depõe esperança em qualquer forma de esquiva, seja na vida após a morte ou na glória que ultrapasse, sublime, dê sentido e, assim, traia a vida. Há três grandes tipos gerais de homens absurdos: Don Juan, o sedutor, que persegue as paixões momentâneas; o dramático, o ator, que condensa milhares de vivências em sua carreira do palco; o conquistador, ou rebelde, cuja luta política foca suas energias no hic et nunc, em si mesmo e nos outros que o rodeiam. O imediato é a marca maior das forças absurdas, a quantidade, seu norte. A Arte é absurda à medida que se inspirar na negatividade, reproduzir a dissonância e nunca propor remates, quando mesmo o artista empenha esforços consciente da infecundidade de seu produto.
O livro conclui retomando o tema que o título implica: o mito grego conta que Sísifo é obrigado, ad aeternitatem, a rolar uma pedra montanha acima apenas para que ela role abaixo após alcançar o cume, quando então o trabalho deve ser recomeçado. Mas por que Sísifo sofre tal castigo? Ele, num constante anseio por vida, sucessivamente desobedece e engana os imortais. Seu desejo de conquista, ao expor Zeus em troca de recursos para sua cidade, revela também sua liberdade com relação à vontade divina e sua paixão pela vida, descrita no episódio em que aprisiona Tânatos e engana Hades, levam Camus a caracterizar Sísifo como o ideal de herói absurdo, e, sua punição, o símbolo maior da condição humana: ele nega os deuses e ergue a pedra - deve lutar continuamente e sem esperança alguma de sucesso. Dessarte, conquanto aceite que não há nada mais na vida além dessa luta absurda, do confronto com o lavor inútil e a energia desperdiçada, ele pode encontrar a felicidade.
Infinita est velocitas temporis, quae magis apparet respicientibus.
Sêneca, Ep. 49.2
«A velocidade do tempo é infinita, e mais visível aos que olham para trás», ensinou o sábio Sêneca ao jovem amigo Lucílio. O romano quis dizer que, conforme conhecemos a história da humanidade, nos apercebemos da curta duração da nossa vida ante essa infinidade temporal. Mais especificamente, recomenda a Lucílio que não desperdice seu tempo em raciocínios sutis de natureza questionável. «A morte», ele diz, «persegue-me, a vida escapa-se-me». Não é, contudo, por tal motivo que ele se entregaria às paixões vis que o Pórtico tanto condena. A sua empreitada é o aperfeiçoamento intelectual, a preparação do espírito para a volubilidade da existência: «diz-me, ao sair de casa, que poderei não regressar; diz-me ao regressar que poderei não voltar a sair. (...) Ilumina as minhas trevas, e mais facilmente me transmitirás um ensinamento para o qual estou preparado».
Ekpyrosis é o termo que os estóicos usavam para designar a destruição universal por meio do fogo, operado por Zeus (ou Júpiter), após o que se seguiria uma nova criação do mundo. Os bárbaros nórdicos incluíam também seus deuses nessa destruição, provocada por Surt, o gigante de fogo guardião do Muspellheimr. A religião zoroastra vê no fogo o elemento purificador dos demais, e até o último avatar de Vishnu, para os hindus, vai trazer uma espada flamejante para purificar os corações humanos. Não creio que seja mas não questiono a possibilidade destes povos estarem certos; há cientistas renomados com proposta similar: um deles até sugeriu a possibilidade, grosso modo, de o universo recuar temporalmente em backwards.
Eu tenho me perguntado qual é a necessidade da ekpyrosis para os estóicos. Essa conflagração do cosmos não ocorrerá, como no cristianismo e outras religiões, por conta da degeneração dos costumes dos homens, mas será somente mais um evento da natureza. E então, por que a escola se preocupara com tal fenômeno? Parece ser, na verdade, a solução para a questão do pós-morte: nada existirá e o homem tem única e exclusivamente esta vida, repetidas vezes, sempre vivendo precisamente nas mesmas condições em ciclos infinitos. A partir de tal perspectiva é claro que alguém pode submergir por completo na letargia, como também pode, intrépido, emergir do lamaçal molesto em que se encontra a fim de alcançar coisas mais sublimes.
Tu que não crês, nem amas, nem esperas,
Espirito de eterna negação,
Teu halito gelou-me o coração
E destroçou-me da alma as primaveras...Atravessando regiões austeras,
Cheias de noite e cava escuridão,
Como n'um sonho mau, só oiço um não,
Que eternamente ecchoa entre as espheras...— Porque suspiras, porque te lamentas,
Cobarde coração? Debalde intentas
Oppor á Sorte a queixa do egoismo...Deixa aos timidos, deixa aos sonhadores
A esperança van, seus vãos fulgores...
Sabe tu encarar sereno o abysmo!«Estoicismo, Antero de Quental»
Num outro soneto, diz o poeta:
Reprimirei meu pranto!... Considera
Quantos, minh'alma, antes de nós vagaram,
Quantos as mãos incertas levantaram
Sob este mesmo céu de luz austera!...(...)
E sou eu mais do que eles? igual fado
Me prende á lei de ignotas multidões. —
...«Comunhão»
Rachel Gazolla sugere, em seu "O ofício do filósofo estóico", que o ideal do sábio estóico serve apenas como pedagogia. O conceito de ekpyrosis também pode ser assim concebido, apesar de parecer tão seriamente discutido por Sêneca. Como nos sonetos de Quental, é a reflexão que vai conferir força ao indivíduo. O abismo deve ser encarado serenamente. O pranto de um não se opõe à sorte igualadora de incontáveis gentes. O fato, por exemplo, de mesmo os bárbaros fadarem seus deuses à destruição apenas diz que a admissão do inevitável, do cumprimento de um destino, é o primeiro passo para a superação do estado patético em que os homens se debatem.
Ou "sobre como tentei suicidar Fernando Pessoa".
"Não tenho, não, já dúvida ou alegria;
Mas nem regresso mais a essa dúvida
Nem a essa alegria regressava,
Se possível me fosse; tenho o orgulho
De ter chegado aqui, onde ninguém,
Nem nas asas do doido pensamento
Nem nas asas da louca fantasia,
Chegou. E aqui me quedo. Consolado
Nesta perene desconsolação.
......................................................
..................................................Esta
Diferença contra a diferença
Entre o vazio cepticismo antigo
Mudo adivinhador, não compreendendo
A força toda do que adivinhou —
Entre isto e o meu pensar. Cheguei aqui.
Nem daqui sair quero, nem queria
Aqui chegar. Mas aqui cheguei e fico."
Primeiro Fausto, Segundo Tema (O Horror de Conhecer), XIII. Fernando Pessoa.
Estava folheando um livro esses dias e me deparei com o poema dramático Primeiro Fausto, de Fernando Pessoa. Não li o texto inteiro com cuidado - li-o no ônibus, na verdade - ou sequer me dei ao cuidado de pesquisar algo mais sobre o poema; mas essa parte especialmente me chamou à atenção.
Em primeiro lugar, é necessário ressaltar a oposição entre "o doido pensamento" e "a louca fantasia". Apesar de serem termos contrários (pensamento-razão, fantasia-gênio) estão unidos pelo atributo comum da loucura. O eu-lírico repreende, de certo modo, a ambas: orgulha-se de ter chegado a "aqui" sem precisar recorrer à loucura da fantasia ou à do pensamento. De outra forma, rejeita também "essa dúvida" e "essa alegria", mesmo que parecessem desejáveis. Em paralelo, "essa dúvida" corresponde ao "doido pensamento", e a "essa alegria" à "louca fantasia".
Na segunda parte do poema, ele opõe "isto" - "o vazio cepticismo antigo" - e o "meu pensar". O "aqui" da primeira parte tem relação com "Esta \ Diferença contra a diferença". Isto é, se o ceticismo é diferente do objeto em relação ao qual é cético - a crença -, por mais que o eu-lírico também enjeite essa crença - "Nem a essa alegria regressava" -, seu pensamento é também diferente dessa diferença. O "aqui" é o consolo para a "perene desconsolação", o consolo de ser definitivamente desconsolado. Ele é um cético que acusa o "cepticismo antigo" de "vazio" e o considera "adivinhador", isto é, ironicamente o ceticismo chegou à mesma verdade que ele pela via da incompreensão, ou seja, com a mesma loucura da fantasia. É esse o "pensamento" que ele enjeita, é esse o vazio conceitual que ele acusa.
Quanto ao "aqui" no qual eu-lírico se estabelece: nega de toda forma a loucura, a adivinhação, a incompreensão, a despeito do resultado. Ele diz, nos últimos versos, que não chegou a "aqui" por vontade própria, assim como não quer sair; simplesmente não faz questão de sair. Rejeita a fantasia e a alegria assim como também rejeita a dúvida e o pensamento do "vazio cepticismo antigo": não quer o consolo falso da fé como não se apoiou no pensamento louco para chegar a "aqui". Sua via foi distinta de uma busca, pela crença ou pela descrença.
Na primeira parte o eu-lírico diz que se orgulha de estar em tal situação. Na segunda, confessa a inércia: a simples oposição entre "a força toda" do objeto adivinhado pelo ceticismo e a vontade que se resignou - "nem queria \ Aqui chegar", mas chegou e, diante dessa força, não tem outra força própria. É o dom que se adquire com resignação. É o fardo, não o benefício.
Na parte III do Segundo Tema, ele diz:
"A fé é isto: o pensamento
A querer enganar-se-eternamente
Fraco no engano, [e assim] no desengano;
Quer na ilusão, quer na desilusão."
E aí é que está o seu consolo: não tem a ilusão como não tem a desilusão, por isso já não quer sair como não quis chegar. Ele chegou à conclusão de que "tudo é erro", que, como diz na parte IV, "saber é a inconsciência de ignorar...". Isto é, tanto a alegria como a dúvida, fantasia e pensamento, ignoram, de forma insconsciente, o único conhecimento: tudo é erro. A perspectiva que não só tudo questiona como tudo nega, isto sim é o verdadeiro - e novo - ceticismo, ao qual não se quer chegar e do qual não se pode fugir, não sem cair no erro da loucura que resume tudo, crença ou dúvida, ao simples estado de confiança "quer na ilusão, quer na desilusão". O eu-lírico desconfia não da ilusão-em-si ou da desilusão-em-si mas da ignorância que inconscientemente as abona.
Trívio
Isso é algo que conheço desde que - e porque - abandonei o cristianismo. Os céticos e os crentes só diferem quanto ao objeto no qual depositam sua fé, porquanto o método empregado para que se atinjam esses "saberes" é o mesmo, daí, quanto ao poema, o ceticismo não compreender a "força toda" do que adivinhou. Ainda mais, a afirmação de que "tudo é erro" acena para sua própria negação - ora, se tudo é erro, afirmá-lo é igualmente errado - , e por isso o ceticismo não foi capaz de apreender a totalidade do que, sem dispor dos métodos para tal, acabou descobrindo. Por outro lado, a ironia e a sutileza da linguagem poética são as responsáveis pela definição dessa certa incerteza: a linguagem conceitual, marcada que é por uma lógica dicotômica - ou isto ou aquilo -, não é capaz de abarcar a grandeza de negar tudo sem cair no paradoxo de afirmar esta negação.
Para se ter um exemplo, basta verificar, como silogismo, a afirmação socrática: "Só sei que nada sei". "Eu sei que não sei nada", ou "sei que não sei", logo, "como poderia saber que sei disso?". O que salva a afirmação é o advérbio "só", que restringe o conhecimento àquele conhecimento em específico (o conhecimento de nada conhecer). Fernando Pessoa, porém, confessa mesmo a possibilidade de haver algo certo no mundo, mas que ninguém saberá, porquanto a idéia não é capaz de corresponder, sendo abstração dela, à realidade. "Tudo é erro" porque, antes de qualquer coisa, a compreensão humana beira a incompreensão, e mesmo o ceticismo cai no erro de acertar isto por adivinhação.
Não sei se o que disse faz sentido, de forma geral, ou se estou fazendo uma leitura excessivamente pessoal desse trecho. Confesso a dificuldade de pôr em ordem as minhas idéias, pois, preciso confessar, não me creio fazer entendido. Como cristão, contestei céticos até o último instante; como cético - que me confessava cético cristão há muito, bem sabem os velhos amigos e o diga certa perseguição que sofri entre os crentes - contestei a própria fé. É neste trívio que me encontro há anos: por questionar a ambos, sempre soube que uma resposta que viesse de minha parte não seria mais do que uma terceira resposta, daí a preferir pensar possibilidades - e temer outras - do que ter uma resposta para tudo que se me apresenta.
Sei que não é por acaso que me identifico com poetas como Fernando Pessoa, Antero de Quental e Augusto dos Anjos. Como disse Orwell, os melhores livros são aqueles que dizem o que já sabemos (ou talvez tendamos a amar mais aquilo que distorcemos e a partir de que podemos corroborar o que pensamos).
PS: Aliás, já falei sobre o nihilitismo aqui? Depois de um comentário sobre a Arte, Nihilitas.
Νόςτοι
Os campos verdejantes que eu não tive,
Contempla, Deirdre, que jamais em vida,
Senão de mim distantes,
Vi botões florescentes.
E se me encontro, o coração já manso,
Cõ'os sulcos e inocentes águas d'antes,
Marulha e a si agita,
Caudal de águas ferventes.
Prado pretérito p'ra abutres,
Ermo do meu tempo.
(08.10.07)
Ode primaveril
É Primavera hoje, ontem, Inverno.
Ainda o Estio há de trazer seus males,
Florescências de Outono,
Sob o temível cão d'Órion.
Descansemo-nos, Lídia,
Sob os floridos frondes olorosos,
Que o Inverno de amanhã já no-los tira.
Não dura a rosa quanto dura um dia
Não duremos quanto mais que uma rosa.
É Primavera hoje,
Saibamos amanhã
Inverno ser, sem rosa.
(28.09.07)
Brahma, Fernando Pessoa
Mestre, são plácidas
Todas as horas
Que nós perdemos,
Se no perdê-las,
Qual numa jarra,
Nós pomos flores.
Não há tristezas
Nem alegrias
Na nossa vida.
Assim saibamos,
Sábios incautos,
Não a viver,
Mas decorrê-la,
Tranqüilos, plácidos,
Lendo as crianças
Por nossas mestras,
E os olhos cheios
De Natureza ...
À beira-rio,
À beira-estrada,
Conforme calha,
Sempre no mesmo
Leve descanso
De estar vivendo.
O tempo passa,
Não nos diz nada.
Envelhecemos.
Saibamos, quase
Maliciosos,
Sentir-nos ir.
Não vale a pena
Fazer um gesto.
Não se resiste
Ao deus atroz
Que os próprios filhos
Devora sempre.
Colhamos flores.
Molhemos leves
As nossas mãos
Nos rios calmos,
Para aprendermos
Calma também.
Girassóis sempre
Fitando o sol,
Da vida iremos
Tranqüilos,tendo
Nem o remorso
De ter vivido.
Vishnu, Antero de Quental
Conquista pois sósinho o teu futuro,
Já que os celestes guias te hão deixado,
Sobre uma terra ignota abandonado,
Homem--proscrito rei--mendigo escuro!
Se não tens que esperar do céo (tão puro,
Mas tão cruel!) e o coração magoado
Sentes já de illusões desenganado,
Das illusões do antigo amor perjuro:
Ergue-te, então, na magestade estoica
D'uma vontade solitaria e altiva,
N'um esforço supremo de alma heroica!
Faze um templo dos muros da cadeia,
Prendendo a immensidade eterna e viva
No circulo de luz da tua Idea!
Siva, Augusto dos Anjos
No auge de atordoadora e ávida sanha
Leu tudo, desde o mais prístino mito,
Por exemplo: o do boi Ápis do Egito
Ao velho Niebelungen da Alemanha.
Acometido de uma febre estranha
Sem o escândalo fônico de um grito,
Mergulhou a cabeça no Infinito,
Arrancou os cabelos na montanha!
Desceu depois à gleba mais bastarda,
Pondo a áurea insígnia heráldica da farda
A vontade do vômito plebeu...
E ao vir-lhe o cuspo diário à boca fria
O vencido pensava que cuspia
Na célula infeliz de onde nasceu.
Humor negro-barato. Más disposições de espírito repetidas. Negações re-afirmadas dia após dia e incansavelmente. Desautomatizações automáticas. Não-rótulo-rotulável. Livre-consciências impostas. Literatura da retomada da retomada. Moda da não-moda. Diferença-sempre-igual-a-cada-esquina. Não-antítese da tese, dialética do sempre-o-mesmo. Estética não-estética cristalizada como sebo das vísceras do porco. Sensações mecanizadas e mecanizações sensíveis, blablablá. Pintura a dedo, a óleo, a pincel, a conta-gotas, a vômito, a cu, a caralho-de-asa.
É simplesmente indizível como tudo aquilo por natureza não-usual, o sujo, o terrível, tornou-se usual, puro, sublime, no cotidiano - e a Arte já é cotidiano-em-si. E como há muito (ou pouco?) já venho a dizer: não é grande coisa dar-se conta disso (isso também é cotidiano). A questão se põe da seguinte forma: qual é a possibilidade de, e onde, encontrar um pouco de autenticidade, de individualidade, no mundo, e, mais, durante quanto tempo mantê-la? O desafio é encontrar uma resposta autêntica.
Crentes e céticos, românticos e clássicos, (pós-)modernos e neovetustos, pseudo-machões e pseudo-cordiais, socráticos e niilistas, pseudo-tudos, todos uns hedonistas sujos, reprodutores de reproduções incansáveis, leite talhado, repasto mucopurulento para cães, poças de serossanguíneas podridões e misérias, todos conluiados, de mãos dadas, pelo fim da inteligência - cada um olhando numa direção diferente, mas seguindo sempre os mesmos passos -, pelo fim da autenticidade, eternamente girando e girando em torno de tudo que já foi cristalizado, empacotado, rotulado, vendido, negado, bem-criticado, bem-vendido, re-negado e re-afirmado. E ficar boquiaberto com a realidade não passa de mera inautenticidade. Os espíritos mais superficiais espantam-se com qualquer coisa, inclusive com o fato de não se espantarem mais.
Até mesmo nosso querido Diógenes sofre nos dias de hoje: que posição mais cínica adotar numa sociedade que prestigia o cinismo - o cinismo vil, vendido, ritualizado, de cada dia - senão ser o menos cínico possível? Até a sinceridade, aliás, que andava com baixa cotação foi revestida de certa aparência, certo sabor tuttifrutti, certo rótulo de "eu-sou-diferente-me-compre" e acabou sendo vendida por uma esmolinha.
E se eu resolver, um dia, dizer "foda-se" a tudo isso, só estarei declarando mais um foda-se nosso de cada dia.
Universidade outra vez. E eu, que já não me sinto tão empolgado a comentar fatos cotidianos, ou mesmo dar à luz alguma coisa própria (sou tímido, oras), alio-me à idéia de não ter muito tempo daqui a frente. A verdade é que ando organizando pouco meus pensamentos. Acumulo alguns cântaros de informação (porque o pensamento, de fato, é líqüido) e vou deixando tudo a um canto escuro, para maturar, ganhar corpo e sabor. Talvez eu misture tudo um dia, ou acabe quebrando alguns vasos, certamente os que azedarem. Até lá, então, somente coleto dados e, ao cruzá-los, mais questões.
Uma dúvida simples, que enviei em e-mail ao professor de Teoria da Literatura (é que ainda estou tentando digerir a Teoria do Romance de Lukács). Será muito bem-vindo aquele que me trouxer uma luz. Comentando a Tragédia como gênero que apresenta um princípio da estrutura do Romance moderno (muito embora a própria definição lukacs-hegeliana de Romance seja "epopéia burguesa" ou "epopéia de um mundo sem Deus"), a partir da leitura de duas tragédias de Sófocles, "Édipo Rei" e "Antígona":
O professor disse que a Tragédia apresenta um princípio de demonismo, ou ruptura entre a exterioridade e interioridade do herói. É apenas um princípio porque o herói, mesmo tendo uma vontade contrária à do Destino, submete-se. Em Édipo Rei, ao tentar fugir do próprio fado, e dessarte cumprindo-o, como punição, o protagonista cega os próprios olhos e torna-se um errante. É fácil ver que esse princípio de ruptura é apenas aparente, ou, melhor dizendo, não é uma ruptura da forma da narrativa, mas interior ao que é narrado. No todo, Édipo cumpre o seu destino e a vontade dos deuses.
Em Antígona se vê a maldição que recai sobre a estirpe de Édipo e Jocasta: Polinice e Etéocles lutam um contra o outro pelo trono, os dois terminam por matar um ao outro, e Creonte, que logra o trono, proíbe que seja feito o funeral de Polinice (que atacara, unido ao rei de Argos, Etéocles e o trono de Tebas). Antígona, diante da idéia de seu irmão penar cem anos nas margens do rio que leva ao mundo dos mortos e nunca atravessá-lo, age fraternalmente e faz seu funeral, já Ismênia nada faz em relação a Polinice e apenas a primeira acaba sendo punida. Com a punição de Antígona, o filho de Creonte, Hêmon, que iria desposá-la, comete suicídio usando a própria espada; a notícia chega aos ouvidos da esposa de Creonte, Erídice, que também comete suicídio.
Em Antígona quem se opõe aos deuses é Creonte, muito embora a narrativa retome o motivo da punição de Édipo. É por isso que Hêmon e Eurídice pagam pelo erro de Creonte (ou, melhor dizendo, Creonte paga pelo erro com a morte deles). O texto termina anunciando que "desafiado o destino, tudo será destino". O que quero saber é: quem está cumprindo um destino? Porque a maldição recai sobre os filhos de Édipo, foi previsto que ele cometeria parricídio e incesto, e os frutos dessa união herdariam o sofrimento, tudo bem até aqui; mas, quanto a Creonte, ele apenas paga o próprio erro perante os deuses ou ele também cumpre - ou encerra - um destino, e, se ele cumpre um destino, como é que ele o desafia?
Em Édipo Rei é visível que o protagonista, ao fugir do destino, cumpre-o. Mas quem apresenta um princípio de ruptura entre a interioridade e a exterioridade na segunda peça? Quem foge ao destino? E se ninguém o faz, se nenhum personagem apresenta essa ruptura interior com a exterioridade, é mesmo a Tragédia um primeiro passo em direção ao Romance? Ou esse princípio de demonismo aparece aqui e ali em algumas tragédias, mas não necessariamente no gênero?
O período na universidade até promete algo de bom. Estou pagando as cadeiras de Literatura Brasileira I, Literatura Portuguesa I e Literatura (clássica) e Latina, Filologia Românica I (muito embora preferisse pagar Língua Latina II antes), e Língua Portuguesa III. O que me preocupa, no momento, é ter ouvido de outros estudantes que a professora de Literatura Portuguesa I, além de louca, costuma colocar notas baixas em seus alunos apenas por capricho (uma vez que ela não faz provas). Isso é escusável: só o MIT tem como orçamento 60% do que gastam as universidades públicas do Brasil (o MIT torra uma merreca de 2bi anuais). O emblema da UFPB, ao invés desse ignorado Sapientia aedificat deveria trazer um grande Universitas publicae fodeta est.
Em vão! Do abismo a boca escancarada
Chama por ti na gélida amplidão...
(Anthero de Quental)
- I -
Ρεξα χιαλο λαθα στηφοτια
(Nikos Gatsos)
Quando vibrou meu coração maldito,
moléstia das moléstias dos meus pais,
rangeu sua lira torva Satanás
e das almas no Inferno ouviu-se o grito.
Depois que o Tempo se escoou aflito,
ansioso por calar a dor dos ais
dos que carpem eternos funerais,
minh'alma os condenou ao Infinito!
Lancei todas as almas sem pecado
à angústia muda em que se exsolve o nada
e às gorjas insondáveis das quimeras...
Amaldiçoando tudo que é sagrado
trancafiei meu coração no nada,
e no meu coração rompi as Eras.
- II -
Emptiness is filling me
To the point of agony
(Metallica)
Das gorjas insondáveis das quimeras,
na escuridão, perambulei sem paz
acompanhando o próprio Satanás
e a nulidade que submete as Eras.
E atravessando regiões austeras
eu procurava os mausoléus finais,
num dos quais Deus supostamente jaz
sepulto sob os ossos das Esferas.
Então desci à solidão mais cava,
mas em redor a escuridão gemia,
e no meu crânio Satanás rosnava.
E nessa escuridão de tumba fria
minh'alma inutilmente se arrastava
e Satanás a um canto me sorria.
Tu que falas assim, põe-te a pergunta: ousas defender que os homens tomados em multidão estão tão prontos a procurar a verdade, de gosto por vezes amargo, como a mentira sempre apetecível, quando, por acréscimo, a procura da verdade inclui a confissão de que nos deixávamos enganar! Ou atreves-te apenas a defender que “a Verdade” é de uma compreensão tão fácil como a mentira, que não exige nenhum prévio conhecimento, nenhum estudo, nenhuma disciplina, nenhuma abstinência, nenhuma renúncia a si, nenhuma honesta preocupação por si, nenhum trabalho lento!
Não, “a Verdade” que também sente horror pela falsidade senão a de se expandir, não se levanta tão depressa. Em primeiro lugar, não pode agir pelo fantástico, que é falso; só é transmitida por um homem na sua qualidade de Indivíduo. Por conseguinte, a sua comunicação dirige-se ainda ao Indivíduo; pois a maneira de considerar a vida que o Indivíduo representa é justamente a verdade. Não pode ser transmitida nem recebida senão sob o olhar de Deus, a não ser pelo auxílio de Deus, que é o intermediário, tal como é a Verdade. Só pode, pois, ser transmitida e recebida pelo “Indivíduo” que, no fundo, poderia ser cada um dos vivos; a verdade não se determina senão opondo-se ao abstrato, ao fantástico, ao impessoal, à “multidão”, ao “público” que exclui Deus como intermediário (porque o Deus pessoal não pode ser intermediário numa relação impessoal) e, por conseguinte, também a Verdade, porque Deus é a Verdade e o seu intermediário.
Kierkegaard.
Não sei se passei tempo demais ouvindo o Harebo, mas tratarei de um tema recorrente na cabeçorra. Como se sabe - eu espero que o leitor o saiba -, sou religioso; entretanto, minha religião é uma simples tentativa de me adequar à natureza. Apenas isso. As religiões todas apregoam dogmas demais e eu já não sou capaz de crer que qualquer uma delas é a porta-voz absoluta de uma divindade que pensa, come, caga e dorme (embora não precise fazê-lo).
A Escola de Frankfurt, especialmente Theodor Adorno, propôs, no início do século passado, que a classe operária não representava uma oposição à burguesia - o termo antitético da dialética - antes constituía uma projeção dela, ou, para ser mais preciso, o proletariado havia sido absorvido pela ideologia burguesa. Uma prova disso é a situação dos operários modernos e "seus" partidos: ao invés de propor uma transformação ideológica, principiando na transformação do modo de produção, o proletariado hoje almeja as mesmas condições de vida do burguês, cultua os mesmos valores, etc.; isso se chama dialética negativa (porquanto não há antítese que venha a gerar uma síntese ao se contrapor à tese).
Mais recentemente, Louis Althusser propôs, em primeiro lugar, que a engrenagem da história não era somente o modo de produção (como Weber), e que há "aparelhos" que reproduzem a ideologia dominante - como a escola, a igreja, a família, a forma de organização do trabalho, etc.; uma crítica a essa teoria é a de que mesmo no interior desses aparelhos - e entre eles - há luta de classes e contradições que lhes tiram o caráter de meros reprodutores da ideologia do Estado. Ocorre que as contradições que surgem no interior desses aparelhos é apenas aparente: porquanto, como propôs a Escola de Frankfurt, o proletariado não é a antítese da burguesia, mas somente a extensão - ou reafirmação - da tese.
É aqui que entro: por motivos óbvios, o cristianismo é o mais potente reprodutor da ideologia capitalista do Ocidente; não só isso, mas, da minha perspectiva, o cristianismo tem uma relação contraditória com seu messias: enquanto Cristo prega o amor entre os homens, o cristianismo fomenta guerras; se Jesus condena a vingança, o cristianismo apóia a pena de morte ou, quando muito, a prisão perpértua; o cristianismo propõe a renovação do homem pela supressão de seus costumes, enquanto Cristo propunha uma simples adequação à natureza: ame ao próximo como a si mesmo e a Deus. Nesse aspecto, o hinduísmo de longe bate o cristianismo: a presença dos hare krishna (por mais que sejam uns trouxas) no Ocidente não poderia ser mais positiva, porquanto, propondo um diferente sistema de valores, é capaz de levar o homem comum à distinção entre os velhos valores "cristãos" e o ideal hinduísta.
Mas assim como não há distinção verdadeira entre os ramos do cristianismo (a árvore é completamente podre e, como disse o precursor do seu messias, deve ser abatida à raiz), também não há suficiente distinção entre os valores dos hare krishna e os valores reais do cristianismo. Sumariamente, ambos pregam o amor, o perdão, a contenção, a abstenção dos prazeres como elevação espiritual, simplicidade, etc.; contrariamente a isso, eu proponho a fé Aesir, que promove a força, a honra, a coragem, a disciplina, a fidelidade, hospitalidade, laboriosidade, enfim, valores que as outras religiões aniquilam em função do seu "amor" passivo e masoquista.
Por outro lado, considero único prático - e simples - caminho o que foi iniciado pelos cínicos e galgado pelos estóicos: a compreensão de um princípio racional como causa eficiente, formal e material do universo; o combate aos vícios e ao que mais seja desnecessário; a serenidade como causa final da virtude; enfim, a idéia de procurar na natureza o princípio racional que a move, para viver e agir de maneira homóloga à dela. Essa é a única religião, religação, possível (com o que quer que seja, no caso, a Natureza).
E a conclusão? [15.05]
A heterogenização de valores é que vai proporcionar um ambiente fragmentado o suficiente para que o indivíduo questione todos esses valores que lhe são apresentados. As dicotomias simples não são suficientes, porquanto eu não vejo diferença entre a prática burguesa e a proletária, ou os valores cristãos (na prática) de quaisquer outros valores sobre os quais se fundam os costumes da sociedade. Sem essa diferença basilar, todos os discursos se reduzem, se anulam e se equalizam - e todas as práticas também. No romance do tipo "idealista abstrato", como propõe Lukács, a alma do homem é menor que o mundo: para que este faça-se compreendido por aquele é mister uma simplificação - e é precisamente essa a condição do homem medíocre: com o pensamento cabresteado por uma aparência de homogeneidade (mesmo que homogeneidade entre as partes, como o velho maniqueísmo dos crentes) é impossível questionar, transformar, abolir, criar e recriar valores.

Odeio falar sobre crença.Tive muitos problemas com religião já.Me menatenho afastado disso para não ter mais problemas,e não lembrar os... read more
on Entre a fé e a vala: o absurdo